Oscar Filho - Apenas Um Dia
Quando mudei pra São Paulo em 2000, o passatempo predileto era observar as pessoas: andando, conversando, sendo assaltadas.
Em pouco tempo tive minha primeira namorada. Lembro que antes do primeiro beijo, eu perguntei pra ela o que achava de mim e ela me disse:
- O que vale é a beleza interior, né?
Eu achei aquilo... muito louco! Por que eu sendo de Atibaia, eu vim do interior. Então eu era o cara mais bonito do mundo pra ela. Foi isso que eu achei na época.
Foi interessante também quando me mostrou fotos de adolescente. Eu disse que ela era linda naquela época e que preferia sua beleza anterior. Logo posteriormente acabou o namoro.
Era uma experiência nova ter que pedir licença pros travecos sentados na escada do meu prédio pra eu poder passar. (Era tão ingênuo que só foi me cair a ficha que eram travecos uma semana depois)
Eu achava demais sair altas horas da noite e ver as coisas por aí, até que eu vi uns skinheads socando um mendigo.
Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece... Realmente foi inesquecível a primeira vez que eu tomei um tapa na orelha e vi o ladrão fugindo com o meu primeiro celular na mão.
Mas, de tudo que aconteceu neste começo de vida em São Paulo, nunca vou esquecer quando fui ao "Charm", lanchonete que tinha perto de casa, perto da meia noite. Estava eu lá sozinho, comendo tranquilamente quando surge uma garota e procura um lugar pra sentar, não encontra e senta no balcão. Como estava sentado sozinho numa mesa de dois eu perguntei:
- Tá sozinha?
Ela me olhou, abriu um sorriso e balançou a cabeça afirmativamente. Convidei a garota pra se sentar comigo e ela aceitou.
Ficamos um tempo nos conhecendo. Ela me perguntou muita coisa: de onde eu era, onde eu morava, o que fazia, quantos anos eu tinha...
Achei demais toda aquela atenção dela comigo. Me senti especial pra ela ali naquele momento. Também comecei a perguntar as mesmas coisas: de onde era, onde morava...
- Onde você trabalha?
Ela titubeou um pouco antes de responder:
- Eu... trabalho... na rua.
- Ahhhh (tentando ser simpático, mas não entendendo muito) Que legal!?! Mas você trabalha tipo... de camelô???
- Na verdade não. Eu trabalho na Augusta mesmo.
- Mas em que lugar da Augusta?
- Nela toda.
Finalmente eu estava deixando de ser tão ingênuo!!! Eu me senti muito bem no dia seguinte, principalmente por ter demorado apenas um dia pra eu perceber que ela só tinha aceitado sentar ali comigo porque era uma prostituta.
Mas deve ter sido difícil pra ela eu tê-la deixado na lanchonete sem nem ter pago o lanche que ela comeu.









